o que fazer quando um bilionário dono de uma big tech faz um anúncio fascista
e outras questões super leves pra começar bem o ano
🛸 olá, internautas! 🛸
feliz 2025! ✨
eu ia começar esse ano com uma edição bem massa sobre como analisar acontecimentos, dinâmicas e discursos que se dão on-line, mas daí a meta anunciou uma merda grande e achei que não devia deixar essa passar. cês sabem que não costumo escrever essa newsletter seguindo à risca os temas e acontecimentos da tech, mas tem vezes que acho que vale conversar sobre o assunto da vez, e esse é um desses casos.
nesse ponto, vocês já devem bem saber que, no dia 7 de janeiro, logo depois do dia de reis, o zuckeberg anunciou mudanças na meta. deixo aqui uma versão do vídeo dublada, uma versão traduzida em texto sem paywall e a versão da folha de são paulo, que foi a que eu usei como referência escrevendo esse texto.
existem muitas formas de interpretar o motivo desse anúncio agora. cada pessoa de cada área diferente fez, tá fazendo e vai fazer uma análise de como isso tem tudo a ver com a área que ela é especialista. poxa, esse anúncio do zuckeberg tá diretamente ligado à economia, à política interna estadunidense, à política externa estadunidense, ao mercado de tech, aos interesses pessoais do zuckeberg e do trump, às lutas lgbtqia+ e a ascensão e manutenção da extrema direita, ao lobby das big techs… o que não falta é análise possível pra esse anúncio e nenhuma delas é necessariamente excludente.
mas eu não tô aqui pra falar da conjuntura da meta no mundo ou tentar dar um motivo pra essa decisão. tem muito mais gente especializada que tá falando disso melhor do que eu. o que eu quero é olhar pra gente.
o que eu quero é olhar pra gente
mas, antes disso, eu quero também resumir bem resumidinho o que o zuckeberg disse que vai fazer porque é importante a gente ter entendido bem antes de continuar.
então, o que o zuckeberg disse é que, de agora em diante, a meta vai:
eliminar a checagem de fatos de suas redes sociais;
implementar a prática de “notas da comunidade”. com isso ele quer dizer que apenas usuários voluntários previamente inscritos de tal maneira podem redigir notas em adendo ao post original. essas notas são avaliadas como úteis ou não por outros usuários e, apenas com avaliações positivas o suficiente – o que depende da quantidade e “variedade” de usuários que a avaliaram –, a nota é adicionada abaixo do post, o qual segue em circulação independente de ser falso e/ou nocivo;
permitir a difusão de mentiras, desinformação, fake news e discursos de ódio contra minorias políticas, como imigrantes, mulheres e pessoas LGBTQIA+;
diminuir a moderação dos dados circulados em suas redes sociais1, de maneira que a empresa só fique com casos de “violações ilegais e de alta gravidade”, duas coisas que não são definidas em momento algum por zuckeberg2;
permitir, difundir e ampliar propaganda política a favor da extrema direita, particularmente do segmento trumpista, contribuindo ainda mais com a radicalização à direita de seus usuários;
mudar as equipes de segurança e moderação de conteúdo da califórnia para o texas;
trabalhar diretamente com –e, logo, em prol de – trump, um literal fascista.
é, em resumo, é isso aí.
cê pode dizer que, de certa forma, não é tudo tão diferente do que a meta já fazia, mas não dá pra negar que é muito significativo o zuckeberg decidir anunciar abertamente que essas são as medidas da sua empresa. também é interessante como todas são táticas básicas do fascismo: diminuir o acesso à informação de qualidade e desacreditar a verdade; criar um sistema em que o inimigo se torna o civil igual a você, nunca o sistema e as pessoas que ocupam os cargos de hierarquia desse sistema; censurar oponentes; centralizar o poder nas mãos de poucos, mas com a ilusão de que as pessoas que os seguem detêm esse poder; propaganda política goela abaixo.
eu não tô dizendo que o zuckeberg anunciou a volta do fascismo. mas eu tô dizendo que as políticas e os valores que ele anunciou adotar e aplicar em sua empresa – e, portanto, a todos seus usuários – são típicas do fascismo. e sabendo que o trump é um fascista e o zuckeberg alinhou sua empresa como facilitadora desse governo, a gente pode afirmar que estamos tratando de medidas fascistas, sim.
mas nossa, né… feliz ano novo. meio baixo astral começar assim de cara. po, a fernanda torres literalmente ganhou o globo de ouro de melhor atriz em filme de drama. deixa eu me sentir o pikachu.
po, cara, super deixo. mas rindo de mim mesma já falando de fascismo logo assim no começo do ano, me veio a dúvida: vale a pena se sentir o pikachu? e isso deu nessa linda conversa, que é o verdadeiro alívio cômico desse texto3:

respirou? deu risada com 3 pessoas que não sabem muito de pokémon tentando descobrir se o pikachu é um caso da educação bancária que paulo freire tanto criticava? ufa. então podemos continuar.
então podemos continuar
mas pra ser honesta, eu queria comentar sobre uma coisa antes. porque me chamou muito a atenção a mudança de base da equipe de moderação e segurança da califórnia pro texas.
é claro que essa é uma mudança simbólica. tem a questão do afastamento do resto da empresa, e o fato da califórnia ser o estado com mais imigrantes nos eua, enquanto o texas é conhecido por ter uma população racista e xenofóbica. mas o que mais me chamou atenção foi uma coisa que tem a ver com isso, mas não é bem isso.
eu já contei pra vocês do início da internet e de como essa técnica nasce não só na, mas da califórnia. se você perdeu essa edição ou quer relembrar a história, recomendo muito voltar pra ler; é uma das minhas edições preferidas e, honestamente, a que acho mais importante de tudo que já publiquei. mas, pra ativar os neurônios da memória, vou tentar relembrar rapidinho:
a internet nasceu da mistura da cultura militar e da cultura hippie, que se deu especificamente na califórnia. e a importância de sublinhar o fato de que é a califórnia é porque os hippies universitários que toparam entrar no projeto financiado pelo exército militar estadunidense eram hippies sem consciência de classe. e, meu amor, sem consciência de classe, ninguém muda o mundo pra melhor.
mas tem uma coisa específica que é o que nos interessa: entre hippies e militares, a internet é criada numa tensão de valores. está nos dois princípios fundamentais dela: o de controle e o de difusão. e a gente já falou disso lá na edição que linkei agora pouco, mas o negócio da internet é que ela só funciona por causa dessa tensão. não existe internet sem controle assim como não existe internet sem liberdade. e o lance da califórnia, com seus tech bros, estrelas do cinema, gays anarquistas, gays neoliberais, imigrantes com dinheiro, imigrantes sem dinheiro, um deserto enorme, hollywood etc. e tal, é que ela é um estado que incorpora essa tensão de valores em seu território. tá na cultura, nas pessoas, na terra. a califórnia existe assim, num terreno instável, híbrido, em eterna disputa.
assim como folklore e evermore são álbuns irmãs, a edição que linkei é irmã da edição seguinte, chamada o que dizem quando dizem que a internet morreu. essa é a segunda edição mais importante da intern3t!!!11. porque nela a gente fala de como esses princípios de controle e liberdade foram dar em duas culturas diferentes, a que chamamos de cibercultura (focada no controle) e a que chamamos de cultura digital (focada na liberdade). essas duas culturas estão em disputa desde a criação da internet. e o que comentei nessa edição é que o que estamos vendo é a consolidação da cibercultura como cultura “vencedora”.
mas, assim, a história-com-h-maiúsculo é longa. eu não acredito que tem como existir um vencedor e um perdedor, eu não sou estadunidense. eu sou analista do discurso, pesquiso produção de sentido na digitalidade. sabe como chama isso em inglês? production of meanings. é próximo de means of production, né? pois é, é que a ad vem de vertente materialista. então acontece que acredito na história humana como uma constante disputa, uma constante tensão. ninguém fica no poder pra sempre. o tempo passa, as pessoas mudam, as necessidades continuam as mesmas: comida, bebida, abrigo, arte, comunidade. nós construímos e destruímos e reconstruímos nossas maneiras de viver em comunidade, nossa humanidade.
e o que isso tem a ver com a califórnia? pois bem. de alguma maneira, a califórnia representa essa cultura esquisita que vive na instabilidade de valores muitas vezes opostos. eu não acho que a califórnia é um exemplo maravilhoso da história da humanidade, plmdds, não vão colocar palavras na minha boca. o que acontece na califórnia é uma coisa esquisita: o discurso e a prática da liberdade hippie é deturpado, tirando a força do movimento político ao introduzir essas ideias como um estilo de vida. como se fosse possível ter uma vida que não é política4.
no texas, se odeia hippie a ponto de querer matá-los. porque o estereótipo do texano é dessa gente que acha que assassinos que trabalham para um Estado opressor imperialista são verdadeiros heróis (os tais veteranos de guerra). o estado do texas acredita demais em deus pátria e família – em que deus é um homem branco com super poderes, a pátria serve pra exploração de recursos em terras internacionais e impedir de que pessoas de outros países entrem nos eua, e a família é aquela coisa bem monogâmica patriarcal mulher loira gostosa com silicone servindo ao marido, uma filha bonita pra exibir e um filho homem que vai herdar o trabalho do pai. pra ter essa vida, é necessário controle. muito controle. o texas se diz um estado “libertário” mas a “liberdade” que é defendida é o desmantelamento de todas as maneiras que nós humanos encontramos para conseguirmos viver em comunidade. e, gostando ou não, concordando ou não, a califórnia ainda prega a importância da comunidade. mesmo que de um jeito esquisito lá deles.
o que tô dizendo é que a califórnia, como estado, tem muito mais a ver com os princípios de liberdade da internet. enquanto o texas é o princípio de controle.
a mudança das equipes de moderação e segurança da meta da califórnia pro texas é a pontuação de todas as outras políticas anunciadas pelo zuckeberg: estamos em plena cibercultura. não é mais uma questão de disputa, o zuckeberg e, portanto, toda a empresa meta, se coloca muito claramente a favor de um único valor, de um único princípio: o controle. e é claro que já conseguíamos notar isso nas práticas da meta, mas agora pela primeira vez o zuckeberg sente que pode assumir esse posicionamento em alto e bom som: ele é um agente da cibercultura. tudo o que ele e sua empresa fazem é na busca de controle, de acúmulo, de padronização, seletividade, filtragem. e ele vai sempre usar a semântica da segurança e da proteção pra sustentar suas decisões e atos.
mas eu falei e repito: a internet é uma técnica. e a gente pode e deve disputar como usá-la. a gente pode e deve disputar nossa agência. a gente pode e deve disputar lógicas e subjetividades. a gente pode e deve lutar pela nossa cultura.
a gente pode e deve lutar pela nossa cultura
sinto que vou repetir isso a minha vida inteira: a internet só existe com os dois princípios em conjunto. mas se as pessoas no poder estão puxando tanto pra um lado, o nosso trabalho é puxar pro outro. e eu sei que você, exatamente você que me está lendo nesse exato segundo, também odeia o que chama de “internet atual”. sei disso porque vejo a quantidade de textos, vídeos, imagens, performances de pessoas em crise com a internet. de pessoas que foram internautas, mas agora são meros usuários. assim mesmo, sem nem aplicar o gênero neutro/ não-binário. eu sei o incômodo que vocês sentem. eu sinto esse incômodo diariamente.
mas se incomodar não é o suficiente. a gente precisa se reeducar em conjunto, dialogar, chegar com novas propostas, se organizar, destruir o atual sistema. e como é que a gente faz tudo isso?
e como é que a gente faz tudo isso?
pra se reeducar, a gente começa lendo. e lendo pesquisa séria, lendo livro, lendo gente que pesquisa essa área há anos, gente cuja vida é voltada pra esse assunto, gente que já tá meio lelé de tanto pensar a internet, a digitalidade e como destruir o capitalismo digital.
eu já passei aqui uma lista muito da boa de livros sobre esses assuntos. e vocês ficam todos de gracinha repostando essa edição, mas quem aí realmente sentou pra ler os livros? quem foi até o final? repostar a lista não basta. tem que ler a porra do livro, meu povo. e eu só vou acreditar que vocês leram esses livros quando vocês pararem de repostar essa lista e começarem a repostar outros textos (meus e de outros pesquisadores, ativistas e jornalistas) que discutem questões da digitalidade seriamente, profundamente. só vou acreditar que vocês estão lendo quando começarmos a discutir, a trocar ideia, a se xingar um pouco se ficarmos íntimes. vocês não têm desculpa. até porque todo mundo no substack é emocionade com leitura e escrita, então leiam. coloquem esses livros nos desafios de leitura que cês fazem pra tentar ler mais ou o escambau que seja. esses não são livros que vão chegar até vocês de outra forma se vocês não fizerem o esforço de ir atrás deles.
enquanto vocês estiverem lendo e depois que terminarem cada leitura, conversem com quem vocês conhecem sobre o assunto. conversem com familiares, amigues, colegas, com gente na fila do mercado, com desconhecides no bar, as meninas que você elogia no banheiro. como? puxando papo. dizendo “nossa, eu li uma coisa super interessante esses dias, veja só”. ou “eu tô lendo esse livro e pensado nisso…”. ou ainda “menina, você sabia que…?”. não é difícil. o que mais tem no mundo é deixa pra falar dos problemas da digitalidade capitalista. e quando o assunto não tiver nada a ver, você diz “cara, nada a ver, mas…”.
dá uma militada com a galera também. toda vez que alguém vier te mostrar uma arte gerada por ia baixa o miyazaki que existe dentro de você e diz que isso é uma violência à humanidade. e toda vez que aparecer uma corrente de ain pergunta pro chatgpt sei lá o que sobre você, vai na resposta do story e fala “irmão, a cada 100 palavras produzidas, o chatgpt gasta meio litro d’água. tu acabou de jogar duas garrafinhas d’água direto na areia quente do deserto. só essa corrente já foram 9 mil litros d’água gastos. é esse o mundo em que você quer viver?”. vira e mexe faço isso. inclusive com gente que eu não falo desde a escola. em geral, as resposta são “é mesmo? meu deus, que horror. não sabia disso! não vou mais fazer”.
porque o negócio é que a gente só se reeduca se a gente partilha conhecimento. e partilhar conhecimento é muito mais do que só compartilhar uns links nas suas redes sociais. pra se reeducar, a gente precisa dialogar. a gente precisa ler, falar, ouvir, escrever, pensar em silêncio, pensar em voz alta, conversar com mais alguém. galera, isso é introdução da introdução ao paulo freire.
em qualquer lugar que a gente frequenta tem alguma Questão ligada à digitalidade. os dispositivos e redes digitais não são perfeitos. então o que a gente faz? aproveita a deixa pra realmente discutir os problemas e soluções nos lugares que frequentamos. nem que seja só pra dar aquela causada na cabeça das pessoas. em casa, com amigues, com família, claro. mas você leva pro trabalho também. você manda a letra, mesmo que de um jeitinho simpático num tom mais taylor swift pras pessoas te ouvirem. e você dá certos jeitinhos. se su colega ou su chefe vem com a ideia de colocar ia, tu vira e argumenta contra, traz os dados, cria o debate, se recusa a fazer. você vai ser teimose. e chate pra caralho. e ainda assim a pessoa mais simpática e mais aberta do mundo pra papear.
é lendo e conversando e acompanhando discussões públicas e levantando essas questões pras pessoas do seu convívio que você também vai entendendo outras propostas viáveis. você aprende a argumentar. você reaprende a imaginar.
você reaprende a imaginar
porque, mis amigues, a gente desaprendeu essa coisa fundamental. e confesso pra vocês que a minha maior nóia com a digitalidade não é nem o fim do mundo iminente, nem a falta de privacidade real dos meus dados – por mais que eu pense constantemente nisso. a minha maior nóia é com a destruição da subjetividade humana.
e soa assim bem apocalíptico, né, mas veja bem. a internet, como eu grito aqui pra vocês todo mês, é uma técnica. e, como essa técnica, hoje em dia, é usada para a produção e circulação de discursos, a gente deve considerar que a internet é uma técnica de mediação de discursos. coloquei assim em negrito e itálico pra vocês sublinharem e anotarem. vai cair na prova. que prova? a prova da vida. enfim. ao mediar discursos, a internet os afeta e os modifica. como? impondo sua lógica de funcionamento.
pode parecer difícil, mas não é não. sabe quando você é artista e precisa tirar uma foto de você segurando o seu trabalho, porque se você postar só o trabalho, o instagram vai circular menos o seu post? ou quando você é jornalista ou escritore e precisa colocar o título do seu post com algumas palavras-chave pra aparecer fácil na busca do google? ou quando você quer usar a expressão “que vontade de me matar” ou alguma variante mas não pode escrever a palavra “matar” ou “morrer” porque se não o instagram deleta seu post alegando que você tá fazendo apologia ao suicídio quando, na vdd, você só tá falando da frustração de não ter sucrilhos no mercado depois de um dia merda? pois bem. tudo isso é a internet afetando e modificando os nossos discursos.
mas não é A Internet, esse ser abstrato, que modifica os nossos discursos. porque a internet, repitam comigo, é uma técnica. quem tá modificando os nossos discursos são as pessoas que constroem essa técnica. são os donos, os ceos e todas as outras pessoas que ocupam cargos de chefia das big techs. e o que são as big techs? são os grandes monopólios de tecnologia digital. estamos falando da google, apple, microsoft, amazon e meta. essas são as cinco principais, as mais filhas da puta porque são as que têm o maior monopólio do mercado. mas quando falo aqui dos modificadores de discursos, podemos incluir bem mais coisa. podemos incluir todas as redes sociais que mais usamos. então, eu também tô falando do tiktok, do pinterest, linkedin, x (tesla), youtube, telegram, snapchat. eu tô falando do substack. e eu também tô falando da shein, do mercado livre, temu, aliexpress, ebay, etsy, shopee. e eu tô falando do duolingo, do spotify, do ifood, do patreon, da netflix, prime, disney+, hbo max, mubi, globoplay, viki etc. eu tô falando de literalmente toda e qualquer empresa privada ou pública que disponibiliza serviços digitais.
a internet é uma técnica que permite muitas outras técnicas em si. e todas as que mais usamos são criadas, desenvolvidas e mantidas por empresas privadas. são as pessoas que ocupam os cargos de alta hierarquia dessas empresas que decidem como essas técnicas vão funcionar. e as decisões dessas pessoas são impostas a todos nós, usuários. somos nós que temos que nos adaptar às escolhas de um pequeno e seleto grupo de pessoas. você não pode dizer “que vontade de me matar” e nem mostrar um vídeo de instrução de como se auto-examinar para câncer de mama porque o mark zuckeberg é um filho da puta.
é fundamental lembrar disso: o mark zuckeberg é um filho da puta. não, brincadeira, essa não é a parte fundamental. mas vale a lembrança. o fundamental é: a internet é uma técnica que medeia discursos controlada por um grupo seleto de bilionários. ela pode – e deve – ser controlada por outras pessoas. é possível criar uma outra internet, porque é possível que outras pessoas desenvolvam essa técnica. e os problemas que estamos tendo são problemas que existem porque quem está decidindo o funcionamento da internet é gente que acredita e impõe uma lógica capitalista, imperialista e colonizadora. essas pessoas estão impondo uma lógica de acúmulo de bens, de exploração de recursos e de opressão. e o anúncio do mark zuckeberg nos mostra e nos lembra que o capitalismo e o imperialismo são o braço esquerdo e direito do fascismo.
e essa lógica (capitalista, imperialista, colonizadora, fascista) nos é imposta todos os dias, a qualquer momento. é o que te faz tirar tanta foto, opinar sobre um assunto do qual você nem entende, é o que te faz achar que precisa sempre fazer mais coisas e te faz se sentir culpade quando não dá conta. essa lógica ultrapassou os limites dos dispositivos digitais, ela se incrustou na nossa subjetividade e, não se enganem, porque ela tá criando raízes cada vez maiores.
entender como essa lógica opera nos permite identificar os problemas que estamos enfrentando. e identificar os problemas nos permite criar formas de resistência e de luta. nos abre a possibilidade de pensar diferente.
ler, escrever, conversar sobre o assunto nos permite pensarmos juntos as outras maneiras de usarmos e desenvolvermos essas técnicas. nos faz nos perguntar até mesmo se queremos ou precisamos delas, se não podemos inventar alguma outra coisa. a coletividade nos traz novas perspectivas, novas maneiras de ver. é assim que novas ideias se criam. é assim que conseguimos construir novos imaginários de nós mesmes e de nossos futuros. e, imaginando, conseguimos agir.
mas como agir contra a internet cibercultural se a internet que nos é dada é cibercultural?
mas como agir contra a internet cibercultural se a internet que nos é dada é cibercultural?
ou, em outras palavras: como agir contra redes de controle quando nossos discursos estão sendo controlados por essas redes de controle?
é essa a questão que todes nós queremos responder, não é? ou melhor, é a questão que todes nós queremos que seja respondida para que possamos seguir a resposta. porque a nossa subjetividade está sendo invadida e nós já não conseguimos inventar. é bizarro, mas é real. é isso que digo quando falo da colonização das nossas subjetividades.
o anúncio do zuckeberg me fez pensar em parar de usar todos os produtos da meta, sem exceção. mas, sem o ig, eu não consigo mais descobrir o cardápio diário do restaurante que gosto, o horário de funcionamento de vários restaurantes e lojas, as datas e localizações de feiras alternativas, eu mal consigo pesquisar novos lugares na cidade pra ir. e também perco contato com mts amigues, pessoas que gosto e que, por diversos motivos, só consigo mantê-las no meu cotidiano por causa do ig. mas, ok, eu posso ainda falar com cada uma dessas pessoas, pedir o número de telefone e mandar mensagem toda semana, é verdade. mas e se eu saio do whatsapp? perco contato todes que não têm outros apps de mensagem ou que não vão mandar sms. mas sem o zap também não consigo marcar parte dos meus médicos. ou comprar produtos de pessoas que não têm loja física ou site de compras. perco contato com grupos de estudo à distância. eu perco contato com vários serviços de assistência. e é bizarro, é bizarro o quanto que dependemos disso.
mas, ok. digamos que estou disposta a deletar todas as minhas contas da meta. ainda sobram tantas outras. o que mais eu ou você teríamos que fazer? sair do instagram, do threads, do zap, ok. mas daí também temos que apagar a conta do x, do substack, do pinterest, do telegram, do gmail, da amazon, da apple, da microsoft, do youtube, tirar todos os nossos arquivos da nuvem que usamos, restringir a geolocalização dos nossos dispositivos e o acesso que cada aplicativo tem a ela, rejeitar todos os cookies e se recusar a entrar em sites que obrigam os “cookies essenciais” (o que inclui a maioria dos sites de notícia que existem), navegar apenas em janela anônima usando vpn, cobrir a câmera da webcam, clicar no ícone de não permissão do uso de dados coletados para ia… é tanta coisa, e é tão pouco. porque a ação individual não é o suficiente para o impacto político.
então, do que estamos falando? no mundo em que vivemos, onde Estados existem, podemos e devemos falar em leis de proteção ao usuário. então, estamos falando de votar em representantes políticos que tomem ações contra as big techs e a favor de nós, humanos. estamos falando de pressionar e exigir dos políticos que estão atualmente exercendo cargos no governo em toda escala de poder – de subprefeituras ao governo nacional – e em todas as instâncias – executiva, legislativa e judiciária – a desenvolver, passar e pôr em vigor leis que permitam uma outra internet. mas que internet é essa? que leis são essas?
de quais grupos de ação podemos participar, podemos acompanhar? e como podemos acompanhar esses grupos? como podemos ajudá-los? financiamento? circulação de informações? nos tornando membros? trabalho voluntário? e se eu não conheço nenhum grupo? e se eu não tenho dinheiro ou tempo pra oferecer? e se eu tenho traumas próprios e desconfio de todos os grupos, que conheço ou desconheço, a ponto de não conseguir participar deles? como posso voltar a confiar? tem outra coisa que posso fazer?
e que encontremos, cada um de nós, um grupo que apoiamos e do qual participamos. como podemos organizar esses grupos em um movimento maior? como dialogar com movimentos desses numa cidade, num estado, num país, em todo um continente, no mundo inteiro? porque a gente não vai conseguir usar o instagram pra isso. nem o zap. nem nenhuma das redes que falei anteriormente. eu, euzinha, particularmente, só consigo pensar no signal como ferramenta de comunicação numa situação dessas.
e ainda assim sigo me perguntando: o que fazer? eu não sei a resposta. eu leio e escrevo e publico e converso e pesquiso porque quero também encontrar respostas, caminhos. diminuir drasticamente o uso de tudo que é digital, deletar todas as contas on-line, distruir lutar pela criação de leis de proteção de usuáries e dados, ir pra rua em protesto do uso e do desenvolvimento dessas tecnologias, boicotar a implementação de determinados serviços provindos dessas empresas, explodir um galpão de estocagem de dados… o que basta? o que é possível de ser feito? o que cada um de nós, com nossos conhecimentos, nossas capacidades, nossas personalidades e nossas vidas, podemos e estamos dispostes a fazer?
todas essas perguntas requerem respostas. comecem as suas respostas.

bem- vindes ao ano novo!
bjoks,
clara 🌿
o que provavelmente significa que muito trabalhador vai ser demitido e a equipe de moderação vai diminuir drasticamente de tamanho, mas aqui já sou eu conjecturando.
a meta, assim como todas as big techs, tem o costume de não definir o que a empresa considera “ruim” ou “perigoso”, mas tem muita gente mundo a fora estudando e pesquisando o que de fato é considerado um problema para a meta. alguns deles você pode ver aqui, em inglês.
eu tenho certeza absoluta que vocês ficaram interessados na questão políticossexual de minha amiga jumed com o mewtwo, então fica aqui a edição da newsletter dela que ela fala sobre o crush dela no mewtwo.
é só ler o poema filhos da época, da wislawa szymborska.


Uou! Obrigada por essa puxada geral de orelha. Que conscientização tão necessária. Ando com uma vontade profunda de fugir pras montanhas! Quando penso nessa dependência que temos de todas essas plataformas, da desespero mesmo. É como se abandona-las, a gente deixasse de existir.
passei essas férias longe do instagram (e pretendo continuar) e o que você falou é muito real mesmo, bizarro. além de me sentir meio eremita e não saber mais da vida de metade das pessoas que eu conheço eu também não sabia mais horário de funcionamento de restaurante, informações da prefeitura etc